Tecnologia e setor público: como anda essa dupla?

Quando pensamos em tecnologia, surgem em nossa mente cenários homéricos, com grandes avanços e descobertas que mudaram a maneira de se relacionar com o mundo. A cada dia, novidades permeiam os canais de notícias com informações sobre inteligência artificial, big data e machine learning, provando que a evolução é contínua – e, quem sabe, infinita. Empresas correm para se adequar a essas alterações, que ditam como iremos nos relacionar com o mundo e com as demais pessoas – embora essa seja uma definição já presente em nossa rotina, podendo ser observada desde uma máquina automática de café até nos servidores de processamento de dados. Entretanto, o setor público ainda sofre para conseguir se nivelar a essas necessidades.

A morosidade do processo licitatório para a aquisição de bens e contratação de serviços impacta diretamente no que a administração pública pode oferecer e no que os cidadãos têm acesso. Diversas vezes, quando o processo é finalizado, o alicerce tecnológico já se encontra defasado, causando prejuízo aos cofres públicos e seus contribuintes. Além disso, principalmente quando se pensa no desenvolvimento de softwares, a qualidade pode impactar no resultado: apesar de não haver uma medição para auferir o quão bom um código é, a maneira como ele é construído influencia diretamente em atualizações futuras, integração com outros sistemas e velocidade de desempenho da aplicação.

Lógico que há diversos exemplos de sucesso do uso da tecnologia pela gestão pública, com a oferta de soluções que facilitam a vida do cidadão e que conseguem seguir a mesma velocidade da demandada pelo mercado. As aplicações mobile têm se destacado nesse cenário, abrindo possibilidades de disponibilização dos mais variados serviços em qualquer lugar, a qualquer hora. Alguns exemplos de sucesso são o app Menor Preço, que permite a comparação de preços de produtos com base nas notas fiscais emitidas em determinada região do Paraná. No Estado também se destaca o Saúde Já, que faz o agendamento remoto da primeira consulta nas unidades de saúde em Curitiba.

Outro exemplo que tem dado certo é a parceria com organizações sociais, que possibilita mais celeridade para atender às demandas da população. Realizada por meio de contrato de gestão, o serviço é agilizado e leva em consideração as boas práticas de mercado. Se isso funciona? Basta pegar o exemplo de Curitiba, considerada a cidade mais inteligente do Brasil pelo ranking da Connected Smart Cities: desde 1998, a capital paranaense centraliza o desenvolvimento e gestão de sistemas com o Instituto das Cidades Inteligentes. Durante esse tempo, diversas soluções foram disponibilizadas para o cidadão, que vão desde o registro de uma solicitação pela central de atendimento até o acesso à internet nas escolas.

Ainda há muito espaço para que a tecnologia modernize mais o Brasil, oferecendo cidades cada vez mais conectadas, inteligentes e bem administradas. A partir do momento que a busca pela vanguarda seja prioridade e que o cidadão seja tratado com a mesmo cuidado que uma empresa teria com seus melhores clientes, a evolução será contínua – e o dia a dia das pessoas, facilitado.

 

Matheus Henrique Batisteti é supervisor de Ambiente Informatizado. Bacharel em Sistemas de Informação, é pós-graduado em Redes e Segurança de Sistemas e está cursando MBA em Gestão de Projetos. Atua no ICI desde 2006.

Tecnologia e sua vitalidade para o futuro das cidades

Recentemente, o Governo Federal lançou o programa “Cidades Inovadoras”, uma iniciativa que contempla financiamento para modernizar os municípios brasileiros com o objetivo de construir políticas públicas sustentáveis. Os recursos vão ser distribuídos de forma prioritária para alguns setores básicos, como saneamento e mobilidade urbana, além do investimento em energias renováveis e eficiência energética. Entretanto, a proposta tem como propósito colocar o País no século XXI quando se fala de tecnologia – o que ainda é um grande gap enfrentado pela nação. Apesar de o Brasil estar entre os 10 maiores mercados do mundo na área, com destaque para o uso de soluções inovadoras em setores como o bancário e da agricultura, ainda é preciso investir muito para que a tecnologia facilite o acesso aos serviços públicos, para o exercício pleno da cidadania.

Avanços já foram vistos nos últimos anos, com a disponibilização de ferramentas que permitem um melhor acompanhamento da gestão pública. Por exemplo, o Portal da Transparência trouxe um acesso mais próximo para verificação do uso de recursos públicos. Também pelos sites governamentais é possível checar os projetos de lei propostos pelos representantes eleitos, assim como seus posicionamentos nas votações realizadas. A tecnologia acaba sendo uma ferramenta imprescindível para a democracia, aproximando a informação a quem quiser obtê-la.

Porém, ainda há muito que se investir para que a tecnologia também aja como facilitadora da vida dos cidadãos e para as tarefas que envolvem a administração pública. A portabilidade de serviços ainda é uma área pouco explorada, com algumas iniciativas que têm se destacado por desburocratizar serviços e solicitações. Um exemplo nesse âmbito é o aplicativo Saúde Já, de Curitiba, que disponibiliza o agendamento do primeiro atendimento em um posto de saúde. Outra solução de destaque lançada há pouco tempo foi o App 190, da Polícia Militar, que permite a solicitação do acompanhamento policial para grande parte dos delitos mais atendidos pelas equipes na rua.

A gama a ser explorada ainda é muito grande. Desde a integração de aplicativos que disponibilizem em tempo real informações sobre o transporte coletivo até o agendamento online da maioria dos serviços públicos, a tecnologia acaba sendo a infraestrutura necessária para agilizar processos e facilitar acessos. Além disso, em era de Big Data, a coleta, processamento e análise de informações podem identificar exatamente os pontos críticos, indicando os caminhos preferenciais para atividades e investimentos. Ainda é importante ressaltar que ela também pode ser vital para que o cidadão consiga ser vigilante e possa exercer seu papel com mais facilidade. Com meios de atuar de maneira empoderada, ele pode comentar, apontar falhas e exigir com mais efetividade que as mudanças sejam realizadas.

A grande verdade é: sem tecnologia usada de maneira efetiva, as cidades enfrentam um caminho brusco para atingirem seus potenciais. Sem facilidade de acesso, os cidadãos contemplam barreiras para um melhor equilíbrio de vida. E sem inteligência nesses processos, o desenvolvimento esbarra – assim como um futuro sustentável para todos.

 

* Amilto Francisquevis é assessor de mercado do Instituto das Cidades Inteligentes (ICI)